AULA 8: O MEU FILHO NASCEU! E AGORA? I

Enfo. João Formiga

Olá sou o João Formiga e sou enfermeiro especialista em saúde materna e obstetrícia.

Após o parto e a alta da maternidade é tempo de percebermos alguns cuidados que deve ter consigo no regresso a casa. A consulta de revisão de puerpério, os cuidados de higiene no pós-parto, as principais alterações físicas sentidas e os sinais de alerta que deve estar atenta serão a seguir abordados.

Após o parto inicia-se um processo em que o corpo da mulher, agora mãe, sofre um conjunto de alterações, adaptações físicas e psicológicas para que retome o estado anterior à gravidez. Em mais nenhuma outra fase da vida tem lugar um conjunto tão grande de alterações em simultâneo e num mesmo curto espaço de tempo.

A involução uterina, em que o útero torna a recuperar o seu tamanho normal é um processo que se inicia logo após o parto. Poderá sentir algum desconforto ocasional que significa que o seu útero está a contrair, mas que cede por volta do 10º dia.

Os lóquios são uma perda de sangue, muco e tecidos do interior do útero e que são expulsos pela vagina. Denominam-se assim e iniciam-se logo após o parto. Evoluem de hemático, isto é, um corrimento com sangue durante os primeiros dias, para sero-hemático, um corrimento cor acastanhada e/ou raiada de sangue do 3º ao 10º dia e por fim para seroso, um corrimento amarelo/esbranquiçado a partir do 10º dia.

Geralmente este corrimento tende a desaparecer até à 3ª semana após o parto, mas pode demorar até 6 semanas.

Também é importante fazer referência às cicatrizes decorrentes do parto, em que no caso de um parto vaginal temos a episiorrafia, a sutura da incisão feita no períneo para facilitar o nascimento do bebé, e que deixa uma pequena cicatriz com pontos que caem naturalmente entre o 7º e o 10º dia.

Em caso de cesariana terá a cicatriz própria da intervenção cirúrgica a nível abdominal tapada com um penso oclusivo. Os pontos ou agrafos terão de ser retirados consoante prescrição médica, geralmente por volta do 10º dia.

De salientar que poderá existir algum desconforto nos primeiros dias ao nível destas cicatrizes, mas que desaparecerão gradualmente.

Em caso de parto vaginal poderá também existir algum desconforto e consequente receio em urinar, dado que pode surgir uma sensação incómoda de ardor. No entanto deve contrariar esse receio, uma vez que ocorre habitualmente só nas primeiras vezes em que urina e deriva do facto da pele e mucosa dos genitais estarem fragilizadas devido ao próprio parto, mas que cede naturalmente.

Dado o esforço do parto e o próprio estado da gravidez pode ocorrer em algumas mulheres algum grau de incontinência urinária temporária, com perdas de urina involuntárias nos primeiros 3 meses. Esta situação resulta do relaxamento dos esfíncteres urinários, regredindo gradualmente e mais rápido se iniciar alguns dos exercícios de reforço desta mesma musculatura.

Outras alterações físicas que podem surgir serão:

  • A obstipação, relacionada com uma reduzida alimentação durante o trabalho de parto, com a diminuição da motilidade intestinal motivada por alguns fármacos administrados durante o internamento e por um aumento da necessidade de aporte de líquidos que tem após o parto relacionados com o aleitamento materno, e que muitas vezes é descurada. Deve compensar os líquidos que perde habitualmente e o leite que produz e que alimenta o seu bebé, com um maior aporte de líquidos.
  • Pode ocorrer também a exacerbação das hemorroidas, que não são mais do que veias dilatadas ao nível da região anal, mas que provocam comichão, dor e incómodo ao sentar-se, podendo mesmo sangrar ligeiramente. São causadas pelo aumento da pressão intra-abdominal durante a gravidez e pelos esforços expulsivos no momento do parto, e se não regredirem naturalmente deve consultar o seu médico assistente.
  • Outra alteração que pode surgir é alguma queda de cabelo após o parto. Durante a gravidez graças às hormonas está especialmente protegida contra este facto, mas depois do parto e pela readaptação hormonal após o nascimento, pode então ocorrer uma perda de cabelo maior que o habitual. É natural, mas reforça mais uma vez a importância de cuidar de si e da sua imagem, procurando ajuda caso a queda de cabelo seja muito volumosa.

Iremos agora focar alguns aspetos importante acerca dos cuidados de higiene no pós-parto.

Em caso de parto vaginal e na presença de episiorrafia, isto é presença de pontos na região do períneo, deve ter alguns cuidados, tais como:

  • Lavar a região com água corrente e morna;
  • Usar sabão de pH fisiológico ou neutro;
  • Secar muito bem com toalha limpa, sem friccionar;
  • Mudar o penso higiénico frequentemente evita a acumulação de sangue. Essa acumulação é propícia ao desenvolvimento de bactérias e consequentemente a uma infeção;
  • Evite sentar-se sobre a cicatriz por longos períodos, podendo utilizar uma almofada redonda com orifício no centro, para ficar mais confortável.
  • Se apresentar hematoma, edema ou desconforto, aplique gelo devidamente protegido sobre essa região por períodos de 10 a 15 minutos a cada 3-4 horas.

Caso tenha sido submetida a cesariana e relativamente à cicatriz abdominal, saiba que:

  • Os pontos ou agrafos devem ser removidos passados 8 a 10 dias.
  • Deve tomar duche de chuveiro, evitando desse modo molhar o penso caso não seja impermeável;
  • O penso deve ser observado todos os dias, pelo que, se apresentar sangue ou pus, ou desenvolver dor muito intensa ou febre, deve consultar de imediato o médico.

Pode ser natural apresentar algum grau de obstipação após o parto, pelo que por receio pode mesmo inibir-se de evacuar. Tente não o fazer pois só vai agravar a situação de obstipação. Neste sentido e para o evitar, deve:

  • Aumentar a ingestão de líquidos, nomeadamente de água, e de alimentos ricos em fibras, como fruta e hortaliça.
  • Fazer caminhadas/exercícios, uma vez que promovem a mobilidade do intestino.

Também pode ser de alguma forma comum na gravidez e posteriormente após o parto, situações de hemorroidas exteriorizadas. Caso sinta dor ao evacuar ou que externamente estejam inflamadas, ou que sangrem ligeiramente ao limpar pode sempre proceder:

  • À aplicação de gelo devidamente protegido ou anestésico local em gel ou pomada;
  • Fazer banho de assento em agua morna/ fria durante 10 a 15 minutos;
  • Proceder a uma higiene adequada após evacuar;
  • Deverá ainda tomar todos os cuidados relativos à prevenção da obstipação que em caso de ocorrer só agrava a situação das hemorroidas.

É importante, todavia, ficar atenta a alguns sinais de alerta que dependendo do grau de gravidade podem motivar a procura de cuidados do médico assistente ou mesmo da urgência hospitalar ou da maternidade. Preste atenção a:

  • Febre, com temperatura superior a 38º durante mais de 24 horas.
  • Inflamação ou formação de pus na ferida da episiotomia;
  • Penso da cicatriz abdominal sujo com sangue ou líquido purulento;
  • Aumento da intensidade da dor, calor e edema no local dos pontos, seja na cicatriz do períneo, seja na cicatriz da cesariana.
  • Mamas excessivamente inflamadas, dolorosas, com uma região vermelha e quente, ou dor intensa nos mamilos.

São também de considerar o:

  • Desconforto urinário, dor, ardor e/ou necessidade de urinar com muita frequência,
  • Uma maior perda de sangue vaginal com cheiro fétido com ou sem dor do tipo cólica menstrual associada.
  • Dor de cabeça intensa com ou sem náuseas ou vómitos;
  • Tristeza profunda, depressão ou sentimento de não se sentir capaz de cuidar do bebé.

É natural que sinta alguma tristeza nas primeiras 2 semanas após o parto. Essa tristeza está associada à readaptação hormonal, à adaptação ao novo papel de mãe, à aprendizagem nem sempre fácil de aspetos relacionados com a amamentação e com o cuidado ao seu bebé.

Este quadro produz por vezes choro frequente, sensação de tristeza e cansaço que gradualmente vai cedendo. Se este quadro se agravar com presença de uma real incapacidade de cuidar do seu bebé e de si, deve pedir ajuda às pessoas mais próximas e consultar de imediato o médico.

A consulta de revisão de puerpério deve acontecer por volta da 6ª semana após o parto. Já ocorreu um estado de recuperação quase total da gravidez e do parto, e ser-lhe-ão fornecidas um conjunto de informações importantes a ter em conta, nomeadamente sobre:

  • A alimentação que deve ser diversificada, completa e nutricionalmente equilibrada, dado que está a retomar o seu equilíbrio anterior à gravidez e porque estará a amamentar.
  • Atividade física, sono e repouso, a higiene, nomeadamente os cuidados na zona perineal, e consumos de tabaco, álcool e outras substancias serão igualmente abordados.

Importante também nesta consulta será a questão do aleitamento materno. Uma das grandes descobertas da nova mãe e do seu bebé. Irá ser então avaliada a frequência noturna e diurna das mamadas.

Numa primeira fase o bebé deve mamar pelo menos 8 vezes num ciclo de 24 horas, no entanto não deve ter por base um horário rígido mamando quando manifestar vontade.

Ira tentar-se perceber se a mãe tem noção de quais os sinais de uma boa pega e quais os sinais que o seu bebé demonstra quando fica satisfeito com mamada.

Verifica-se a condição e estado das mamas e mamilos, procurando por fissuras ou sinais inflamatórios.

Informa-se sobre manobras de extração e conservação de leite materno.

Em suma, é feito um esclarecimento de dúvidas e resolução de problemas relacionados com a amamentação. Não esquecendo, no entanto, que pode não esperar pela consulta de revisão de puerpério para esclarecer dúvidas sobre esta questão, uma vez que muito centros de saúde e alguns hospitais já têm espaços e cantinhos de amamentação para apoiar as mães durante o aleitamento materno

Caso a mãe não esteja a amamentar ou esteja a complementar o aleitamento materno com leite artificial serão abordadas também as questões relacionadas com:

  • A higienização e esterilização de biberões e tetinas.
  • Preparação de fórmula para lactente, ou seja, a preparação do biberão.

Em caso de impossibilidade ou opção materna, à mulher que não amamenta deverá ser assegurado o apoio específico na supressão láctea, isto é, reduzir até suspender a produção de leite, sem que a mãe tenha desconforto ao nível mamário.

Outra questão importante está relacionada com a recuperação física no pós-parto, especialmente a realização dos exercícios de Kegel e a reeducação períneo esfincteriana.

  • Os exercícios de Kegel têm como objetivo fortalecer os músculos do pavimento pélvico.
  • É importante promover a reeducação períneo esfincteriana, com o objetivo de fortalecer o esfíncter externo da uretra, quando para isso existir indicação, como é o caso da incontinência urinária temporária após o parto.

Para além do conjunto de informação e avaliação, que já referimos, é importante perceber a existência de queixas específicas por parte da mulher, nomeadamente:

  • A presença de algum tipo de dor no local da cicatriz, na região pélvica ou nas mamas,
  • As características do fluxo vaginal, se regrediu como é esperado e que nesta altura deve ser escasso ou mesmo inexistente,
  • A presença de queixas urinárias,
  • A presença de febre nas semanas que antecederam a consulta.
  • Entre outras.

Serão ainda abordadas questão relacionadas com o planeamento familiar, nomeadamente na escolha de método contracetivo que seja o mais adequado para o casal. O reinício da atividade sexual e eventuais dificuldades sentidas pelo casal são temas que não são esquecidos nesta consulta.

É Importante também avaliar as possíveis alterações emocionais que possam ocorrer nesta fase. Algumas alterações são normais e traduzem uma readaptação hormonal e a adaptação a um novo papel.

Se ainda não tiver sido abordado, verificar-se o estado vacinal do bebé.

Por último serão abordadas as necessidades de suplementação oral diária de ferro e iodo, segundo as recomendações da direção geral de saúde e a organização mundial de saúde. O ferro com o intuito de prevenir situações de anemia aguda no pós-parto por parte da mãe. E em relação ao iodo, durante o aleitamento materno exclusivo, como forma de promover um melhor crescimento e desenvolvimento do bebé ao nível cerebral.

Ainda, e em complementaridade será avaliado o seu estado nutricional e peso atual, e como já referimos a importância de hábitos alimentares e estilos de vida saudáveis. Nesta consulta é natural que tenha perdido já parte do peso que aumentou durante a gravidez. Esta perda de peso será facilitada caso esteja a amamentar.

Apesar de por vezes não ser fácil, deve reservar sempre algum tempo para si diariamente.

Não se esqueça que para além de mãe continua a ser uma mulher e que tem de cuidar de si.

Por hoje é tudo! Até uma próxima aula!

Material de apoio

© 2018 EP Health Marketing SL • Todos os direitos reservados